{"id":2187,"date":"2011-05-26T19:39:28","date_gmt":"2011-05-26T18:39:28","guid":{"rendered":"http:\/\/barreiroweb.eu\/?p=2187"},"modified":"2011-05-26T19:44:56","modified_gmt":"2011-05-26T18:44:56","slug":"da-guerra-nunca-se-volta-5-a-lenda-do-monomotapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/?p=2187","title":{"rendered":"DA GUERRA NUNCA SE VOLTA! &#8211; 5. A  LENDA DO MONOMOTAPA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/barreiroweb.eu\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/teixeira.jpg\" rel=\"lightbox[2187]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-106\" title=\"teixeira\" src=\"http:\/\/barreiroweb.eu\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/teixeira-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/teixeira-150x150.jpg 150w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/teixeira-50x50.jpg 50w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/teixeira-70x70.jpg 70w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2011\/01\/teixeira-55x55.jpg 55w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>\u00c1FRICA DESCONHECIDA<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0[ PARA A HIST\u00d3RIA DO COLONIALISMO PORTUGU\u00caS ]<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">5.\u00a0 A\u00a0 LENDA\u00a0DO\u00a0MONOMOTAPA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os povos antigos que habitavam a \u00c1frica Oriental muito antes da chegada dos portugueses no princ\u00edpio do s\u00e9culo XVI, tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os rel\u00e2mpagos eram aves gigantes descendo rapidamente \u00e0 terra em dias de tempestade. Animistas, adoradores da Natureza, esculpiram de forma magn\u00edfica em grandes dimens\u00f5es os imagin\u00e1rios p\u00e1ssaros, deixando para a posteridade testemunho grandioso do seu engenho e habilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta actividade art\u00edstica, subentendia uma organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica evolu\u00edda, muito para al\u00e9m da avalia\u00e7\u00e3o dos exploradores europeus que no s\u00e9culo XIX descobriram tais heran\u00e7as arqueol\u00f3gicas, numa zona de ru\u00ednas ancestrais, no interior da Rod\u00e9sia, n\u00e3o muito longe das fronteiras ocidentais de Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estes povos sedent\u00e1rios praticando a agricultura, possuindo uma tecnologia da idade do ferro, estes \u201cazanienses\u201d ? segundo a denomina\u00e7\u00e3o grega, habitantes da terra dos Azani \u2013 deixaram atr\u00e1s de si muitos e significativos testemunhos: ru\u00ednas de estabelecimentos, cidadelas de pedra, socalcos \u00e0 volta dos montes para a agricultura, canais de irriga\u00e7\u00e3o, estradas, minas, forjas, sepulturas e pinturas rupestres. Quem eram estes \u201cazani\u201d que deixaram todos estes s\u00edmbolos hist\u00f3ricos?\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Provavelmente uma civiliza\u00e7\u00e3o florescente nas \u00e1reas que hoje s\u00e3o o Qu\u00e9nia, a Tanz\u00e2nia, a Z\u00e2mbia, o Zimbabw\u00e9 e parte de Mo\u00e7ambique, aprendida com os povos do Nilo m\u00e9dio e com os Axumitas da Eti\u00f3pia, quando estes, pressionados pelo Islame nos s\u00e9culos VII e VIII, fugiram com os seus descendentes mais para Sul atrav\u00e9s do Qu\u00e9nia (onde o Isl\u00e3o nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram at\u00e9 aos s\u00e9culos XIV e XV, pouco antes da chegada dos portugueses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499, a caminho da \u00cdndia, surpreendeu-se com o n\u00edvel de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala, Melinde, Quiloa e Momba\u00e7a, enriquecidas pelo tr\u00e1fego comercial com os pa\u00edses \u00e1rabes e a \u00cdndia, com quem comerciavam h\u00e1 mais de um mil\u00e9nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Organizadas em cidades-estado, possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado, que n\u00e3o se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval, faziam de entreposto com os reinos do interior, trocando directamente tecidos, contas, especiarias, ess\u00eancias e faian\u00e7a chinesa, por ouro, cobre, ferro, marfim e escravos, estes em escala reduzida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos, numa organiza\u00e7\u00e3o de tipo tribal-feudal, com uma economia assente na agricultura, na pastor\u00edcia e na extrac\u00e7\u00e3o mineira. O mais lend\u00e1rio desses reinos era o de Monomotapa, situado no planalto abrangendo o Zimbabw\u00e9 (antiga Rod\u00e9sia) e parte do territ\u00f3rio de Mo\u00e7ambique. Evolu\u00edra para a idade do ferro e para uma organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica de classes pela interpenetra\u00e7\u00e3o com os povos conquistadores referidos, vindos do Norte, que j\u00e1 possu\u00edam t\u00e9cnicas de trabalhar o ferro.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando os portugueses se instalaram nas costas do \u00cdndico, primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Mo\u00e7ambique em 1507, encontraram um com\u00e9rcio progressivo, feito atrav\u00e9s de numerosos intermedi\u00e1rios \u201cmouros\u201d, que j\u00e1 utilizavam inclusiv\u00e9 a moeda, mantendo h\u00e1 s\u00e9culos uma intricada rede com as cidades do Golfo P\u00e9rsico, da \u00cdndia e at\u00e9 do Extremo Oriente. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no com\u00e9rcio costeiro de trocas, com o benepl\u00e1cito dos comerciantes locais de ascend\u00eancia \u00e1rabe vendo naqueles, novas oportunidades de neg\u00f3cio. At\u00e9 ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos pr\u00e9-existentes para ganharem, mais!&#8230;\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de \u00c1frica, levaram pouco tempo a desvanecer-se. Em 1513, Pedro Vaz de Soares, agente real de Sofala, escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os \u201ccafres e mouros\u201d de s\u00f3 entregarem oiro sob a forma de pequenas contas e j\u00f3ias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por orienta\u00e7\u00e3o da Coroa, retr\u00f3grada e oportunista, os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais, tomando conta pela for\u00e7a do transporte mar\u00edtimo costeiro e transoce\u00e2nico como nos conta Basil Davidson no seu livro, \u201cRevelando a velha \u00c1frica\u201d: \u201cO seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais rica gra\u00e7as aos seus canh\u00f5es tal tarefa tinha sido relativamente f\u00e1cil. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tr\u00e1fico entre \u00c1frica e a \u00cdndia, mas neste intento viriam a ser derrotados, apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota, pela sua ignor\u00e2ncia e pela sua gan\u00e2ncia. Como todos os imperialistas, queriam muito e depressa!&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como um erro nunca vem s\u00f3, os homens da \u201ccruz de Cristo\u201d tentaram apoderar-se do tr\u00e1fego comercial com o interior. N\u00e3o se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras, quiseram faz\u00ea-lo directamente para recolherem lucros de ambas as partes!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Com esse fito meteram-se para o interior, e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama, havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze, em Sena e em Tete. Em 1561, quando frei Gon\u00e7alo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa, situada nas colinas a Sudoeste de Tete, nas margens do Zambeze, j\u00e1 l\u00e1 encontrou um patr\u00edcio a viver permanentemente. Em paz por pouco tempo!\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por volta de 1571, uma expedi\u00e7\u00e3o militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. Abrindo caminho \u00e0 for\u00e7a de espada, chegou \u00e0 regi\u00e3o escarpada de Penhalonga e \u00e0 zona das minas de que havia not\u00edcias fantasiosas. \u00a0Verificando \u00a0que \u00a0o ouro \u00a0era \u00a0raro e dif\u00edcil de obter ( n\u00e3o eram as c\u00e9lebres minas do rei Salom\u00e3o!&#8230; ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados pelas febres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em 1607, a \u00e2nsia fatal de monopolizar o com\u00e9rcio dos metais preciosos, leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa, ro\u00eddo pelas guerras internas, a concess\u00e3o de todas as minas de ouro, cobre, ferro, chumbo e estanho no seu territ\u00f3rio, na condi\u00e7\u00e3o de: \u201cO rei de Portugal lhe garantir a sua posi\u00e7\u00e3o e o apoiar no combate a um rival rebelde\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ser protegido desta maneira \u00e9 meio caminho para a subjuga\u00e7\u00e3o e em 1629, ap\u00f3s uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil \u201ccafres\u201d vassalos, destru\u00edram o ex\u00e9rcito do Monomotapa matando a maioria dos nobres do imp\u00e9rio, o imperador foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses e cavando o seu pr\u00f3prio fim!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bibliografia :<\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li>DAVIDSON, BASIL, Revelando a velha \u00c1frica, Prelo, Lisboa, 1968<\/li>\n<li>Guerra em \u00c1frica, Mo\u00e7ambique \u2013 Batalhas da Hist\u00f3ria de Portugal<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u2013 Academia Portuguesa de Hist\u00f3ria \u2013 Rui Teixeira, Lisboa, 2005<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0Armando Teixeira<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1FRICA DESCONHECIDA \u00a0[ PARA A HIST\u00d3RIA DO COLONIALISMO PORTUGU\u00caS ] 5.\u00a0 A\u00a0 LENDA\u00a0DO\u00a0MONOMOTAPA \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os povos antigos que habitavam a \u00c1frica Oriental muito antes da chegada dos portugueses no princ\u00edpio do s\u00e9culo XVI, tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os rel\u00e2mpagos eram aves gigantes descendo rapidamente \u00e0 terra em dias de tempestade. 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