{"id":14208,"date":"2016-02-28T01:13:22","date_gmt":"2016-02-28T01:13:22","guid":{"rendered":"http:\/\/barreiroweb.eu\/?p=14208"},"modified":"2023-02-28T18:17:24","modified_gmt":"2023-02-28T18:17:24","slug":"a-bandeira-vermelha-memorias-com-81-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/?p=14208","title":{"rendered":"A Bandeira Vermelha, Mem\u00f3rias com 81 Anos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/barreiroweb.eu\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/bandeiradoc.jpg\" rel=\"attachment wp-att-14209\" rel=\"lightbox[14208]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-14209\" src=\"http:\/\/barreiroweb.eu\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/bandeiradoc-300x200.jpg\" alt=\"bandeiradoc\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/bandeiradoc-300x200.jpg 300w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/bandeiradoc-768x512.jpg 768w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/bandeiradoc.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>As pernas come\u00e7aram a tremer-lhe, nas m\u00e3os j\u00e1 lhe faltavam as for\u00e7as, o ferro frio dos degraus parecia distanciar-se, o ch\u00e3o firme dez metros abaixo desaparecia na n\u00e1usea e na escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto desejava ser ele a colocar aquela bandeira, que transportava t\u00e3o carinhosamente enrolada bem junto do cora\u00e7\u00e3o! Fizera quest\u00e3o de frisar isso na \u00faltima reuni\u00e3o preparat\u00f3ria.<br \/>\nComo mais respons\u00e1vel, cabia-lhe a ac\u00e7\u00e3o m\u00e1xima muito embora soubesse sofrer de vertigens, por experi\u00eancia j\u00e1 vivida em outras ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Estranha sensa\u00e7\u00e3o aquela, que o fazia perder o equil\u00edbrio, como se um v\u00f3rtice puxasse para baixo o corpo leve, por instantes imponder\u00e1vel, sobre pernas que se assemelhavam a varas verdes ao vento.<\/p>\n<p>Tinha sido assim na janela do 3.\u00b0 andar no pr\u00e9dio do hom\u00f3nimo Costa, na Rua Miguel Pais, quando participara nos exerc\u00edcios dos Bombeiros do Sul e Sueste, a convite do Nicolau.<\/p>\n<p>E que bem se tinham comportado os valentes soldados da paz, uma aut\u00eantica luva branca na cara do inspector, que insinuara estar a corpora\u00e7\u00e3o mais preocupada com pol\u00edtica do que com o treino e prepara\u00e7\u00e3o dos homens.<br \/>\nMas n\u00e3o podia dar parte de fraco, j\u00e1 estava a meio da subida, o que iriam pensar os camaradas que aguardavam expectantes c\u00e1 em baixo?<\/p>\n<p>Mais um degrau&#8230; um fr\u00e9mito de tenor!<\/p>\n<p>\u2014 Vou cair!?!<\/p>\n<p>Joaquim fora cedo para os Penicheiros, toda a noite se mostrara bem a toda a gente, jogara, brincara com meio mundo, pusera em pr\u00e1tica a primeira parte do plano que pressupunha como haviam combinado na reuni\u00e3o, ser bem visto.<\/p>\n<p>\u2014 Eh! pessoal amanh\u00e3 \u00e9 dia de trabalho, vou andando para casa.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1, t\u00e3o cedo? S\u00e3o dez e meia, aguenta mais um bocado que vamos juntos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e1! O corpo anda mo\u00eddo, o trabalho \u00e9 duro, e \u00e0s seis da manh\u00e3 j\u00e1 estou a p\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o bons sonhos, hem! N\u00e3o te esque\u00e7as da Olinda&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Toma tu \u2018conta da tua, que \u00e0 minha n\u00e3o lhe falta nada!<\/p>\n<p>A confian\u00e7a m\u00fatua dava para brincadeiras mais brejeiras, havia uma enorme amizade entre aquela gera\u00e7\u00e3o jovem, criada num esp\u00edrito novo de fraternidade e esperan\u00e7a na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, soprada pelos ventos que vinham do Leste.<\/p>\n<p>De facto n\u00e3o andavam muito bem as coisas l\u00e1 em casa. Casados ia para tr\u00eas anos, Joaquim e Olinda viviam a ang\u00fastia de evitar os filhos, para que a desgra\u00e7a da falta de dinheiro n\u00e3o fosse agravada.<\/p>\n<p>O ordenado n\u00e3o chegava a meio do m\u00eas, as d\u00edvidas acumulavam-se, e ainda tinham de acudir aos pais.<\/p>\n<p>O pai de Joaquim, velho pescador do rio, incapacitado pelo reum\u00e1tico, sem reforma, vivia \u00e0 m\u00edngua dos filhos.<\/p>\n<p>\u2014 Raio de vida, mulher! N\u00e3o me chateies com as reuni\u00f5es. J\u00e1 sabes que chego tarde e pronto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, e eu fico aqui sozinha em casa!? Tu vais para a colectividade, tu vais para as reuni\u00f5es, e eu fico aqui feita m\u00famia!<br \/>\nOlinda trabalhava na corti\u00e7a, mas nos \u00faltimos anos, o trabalho era cada vez mais escasso, tr\u00eas ou quatro meses por ano, o resto do tempo era uma mis\u00e9ria, nem subs\u00eddios, nem abonos, nada.<\/p>\n<p>Muito jovem, doze anos apenas, com poucos meses de casa, participara numa c\u00e9lebre luta, ao lado das mais velhas, para exigir sal\u00e1rio igual ao dos homens, pois era igual o trabalho que faziam.<\/p>\n<p>Foram dias inesquec\u00edveis aqueles, em que ouvira falar pela primeira vez em greve, ao lado da Elisa Russa, da Germana, da Joaquina, de tantas outras mulheres corajosas, \u00abfabricantas\u00bb como ela, que tinham batido o p\u00e9 aos patr\u00f5es e conseguiram um aumento dos sal\u00e1rios, ainda que n\u00e3o igual ao dos homens.<\/p>\n<p>\u2014 O importante \u00e9 que tenhamos conseguido o aumento, \u00e9 uma grande vit\u00f3ria para as mulheres trabalhadoras \u2014 dizia a Vit\u00f3ria de nome, das mais entusiastas grevistas.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, mas o encarregado j\u00e1 me disse que agora ganhamos mais, temos que tratar mais corti\u00e7a!<\/p>\n<p>\u2014 Grandes cabr\u00f5es, querem dar com uma m\u00e3o e tirar com a outra. Mas j\u00e1 sabemos o que vale a unidade, se for preciso fazemos outra luta!<\/p>\n<p>Olinda recordava com nostalgia aqueles dias, dois consecutivos, em que as oper\u00e1rias juntavam a comida \u00e0 hora do almo\u00e7o, muito modesta e frugal, e comiam todas em conjunto, entre risos e dichotes brejeiros, porque para al\u00e9m da tens\u00e3o, o momento era de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Sentira que naquela altura deixara de ser mi\u00fada. Agora, com aquela experi\u00eancia, j\u00e1 era mulher feita!<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m gostava de ir \u00e0 colectividade, de participar nas reuni\u00f5es do Partido. Sei muito bem o que quero, ou esqueces que j\u00e1 estive numa greve?!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 isso, mulher. J\u00e1 sabes que n\u00e3o \u00e9 h\u00e1bito as senhoras sa\u00edrem \u00e0 noite, n\u00e3o fica bem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! N\u00e3o fica bem?! Mas foi no baile, \u00e0 noite, que tu me conheceste!<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 outra coisa, as mo\u00e7as v\u00e3o acompanhadas pela fam\u00edlia, \u00e9 um dia de festa, vai l\u00e1 toda a gente.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, meu malandro, as m\u00e3es v\u00e3o tomar conta das meninas. Mas quando ia \u00e0 noite ter contigo a casa da tua tia, vi\u00fava, antes de casarmos, j\u00e1 n\u00e3o te importaste!<\/p>\n<p>Quest\u00e3o nova, velha quest\u00e3o, a da participa\u00e7\u00e3o das mulheres na vida das colectividades e no trabalho pol\u00edtico.<\/p>\n<p>As mulheres portuguesas tinham encetado os primeiros movimentos emancipadores durante a Rep\u00fablica, mas o eclodir da ditadura militar viera reprimir e sufocar o grito libertador.<\/p>\n<p>No entanto, a sua crescente participa\u00e7\u00e3o na vida econ\u00f3mica (na corti\u00e7a, nos t\u00eaxteis, na costura) obrigava a rediscutir o papel de subjuga\u00e7\u00e3o ancestral que a sociedade lhes atribu\u00eda.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinham abordado a quest\u00e3o na reuni\u00e3o do Comit\u00e9 Local, tinha-se mesmo discutido a cria\u00e7\u00e3o de um organismo de mulheres, mas a vontade de avan\u00e7ar com os convites n\u00e3o era muita. Depois quem fazia a lida da casa e ficava com os filhos \u00e0 noite?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e1! A actividade pol\u00edtica n\u00e3o era muito apropriada para as mulheres \u2014 sintetizava um dos respons\u00e1veis, exteriorizando um pensamento comum e retr\u00f3grado.<\/p>\n<p>As Olindas da nossa hist\u00f3ria teriam que esperar muitos anos para poderem ter a justa participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica.<\/p>\n<p>\u2014 Cuidado, repara bem se \u00e9s seguido, a pol\u00edcia anda desconfiada! \u2014 dissera o Ac\u00e1cio.<\/p>\n<p>\u2014 Se notares algo de suspeito volta aos Penicheiros e avisa o Garcia acrescentara o Reinaldo.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia pol\u00edtica, criada por Salazar, j\u00e1 tinha ultrapassado os primeiros tempos de incipi\u00eancia e estava agora activa como nunca, especializada na repress\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o de tudo o que cheirasse a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. Afirmava-se cada vez mais como um sustent\u00e1culo do regime.<\/p>\n<p>A PVDE (Policia de Vigil\u00e2ncia e Defesa do Estado), que sucedera \u00e0 Pol\u00edcia de Defesa Pol\u00edtica e Social, enquadrada por esbirros treinados na Europa, perseguia, reprimia, prendia, torturava. Os comunistas eram a sua maior preocupa\u00e7\u00e3o, depois de uma fase voltada para o anarco-sindicalismo, e o PCP, na clandestinidade, \u00fanico partido que de forma organizada combatia a fasciza\u00e7\u00e3o crescente, era o alvo principal.<\/p>\n<p>Nas f\u00e1bricas, nas escolas, nas ruas, nas colectividades, uma vasta rede de informadores (bufos), recrutados entre os situacionistas e legion\u00e1rios, muitas vezes entre a marginalidade, criavam um ambiente cinzento de desconfian\u00e7a e ang\u00fastia, que durante muito tempo haveria de castrar a iniciativa e a vontade dos portugueses, agravando um atavismo secular de submiss\u00e3o e conformismo.<\/p>\n<p>Mas os sentimentos antifascistas de resist\u00eancia e luta pela liberdade ganhavam ra\u00edzes entre a juventude.<\/p>\n<p>Muitos homens que tinham vivido a experi\u00eancia, cheia de profundas contradi\u00e7\u00f5es, da 1 Rep\u00fablica, contribu\u00edam com o seu amadurecimento para a compreens\u00e3o de que s\u00f3 de forma organizada e baseada na participa\u00e7\u00e3o de largas camadas da popula\u00e7\u00e3o se poderia travar o passo \u00e0 ditadura nacional, como ent\u00e3o era conhecida.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/barreiroweb.eu\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/chamineantiga.jpg\" rel=\"attachment wp-att-14210\" rel=\"lightbox[14208]\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-14210\" src=\"http:\/\/barreiroweb.eu\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/chamineantiga-268x300.jpg\" alt=\"chamineantiga\" width=\"268\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/chamineantiga-268x300.jpg 268w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/chamineantiga.jpg 336w\" sizes=\"auto, (max-width: 268px) 100vw, 268px\" \/><\/a>Joaquim Rodrigues saiu calmamente, seguindo o caminho que sempre fazia no regresso a casa. Parou duas ou tr\u00eas vezes para acender o cigarro e voltou-se como que para proteger a chama, aproveitando para olhar as esquinas e escutar com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao chegar ao \u00faltimo quarteir\u00e3o, inflectiu o percurso esgueirando-se para sul na direc\u00e7\u00e3o das vinhas, mas sobressaltou-se ao perceber um vulto colado \u00e0s paredes, caminhando de forma insegura.<\/p>\n<p>Um derradeiro momento de hesita\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o acelerado pela tens\u00e3o que antecede as grandes circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Divisou um xaile de mulher, quando o vulto virou a esquina:<\/p>\n<p>\u00abHum, deve ser algu\u00e9m a cuidar de aflitos\u00bb, pensou.<\/p>\n<p>A ac\u00e7\u00e3o estava em marcha, um impulso extremo indicava-lhe o caminho da Avenida da B\u00e9lgica, onde ficava o posto de transforma\u00e7\u00e3o n.\u00b0 2 que alimentava de energia el\u00e9ctrica todo o lado poente da vila. Se algum medo sentira, dilu\u00edra-se na excita\u00e7\u00e3o da aventura.<\/p>\n<p>Caminhava agora seguramente, passo largo, sem pressas e ia recordando as discuss\u00f5es preparat\u00f3rias:<\/p>\n<p>\u2014 Os fascistas est\u00e3o cada vez mais arrogantes, temos que lhes dar uma resposta exemplar \u2014 afirmava o Jos\u00e9 Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E necess\u00e1rio cortar a energia, vai ser uma tarefa arriscada. Quem vai fazer? \u2014 Perguntava o Chico Faquinhas.<br \/>\nEra tido como o elemento mais destemido do grupo, como em v\u00e1rias ocasi\u00f5es tinha revelado, mas o acanhamento n\u00e3o deixava que tomasse a iniciativa.<\/p>\n<p>O Jos\u00e9 Mina reparou na sua hesita\u00e7\u00e3o e veio em socorro:<\/p>\n<p>Isso \u00e9 tarefa aqui para o Joaquim, \u00e9 a pessoa mais indicada!<\/p>\n<p>Naturalmente ter\u00e1 que ser ajudado, algu\u00e9m dever\u00e1 ficar na cobertura! \u2014 aconselhou o Ferreira.<\/p>\n<p>\u2014 Se estiverem de acordo eu proponho-me ajudar \u2014 acrescentou sorridente o Garcia.<\/p>\n<p>Joaquim Garcia era amigo do outro Joaquim, amizade que vinha dos tempos da escola, consolidada no companheirismo e no partilhar de dificuldades e segredos da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Normalmente onde estava um, estava o outro, por isso todos sorriram quando pediu a palavra, adivinhavam o que ele ia dizer.<br \/>\nAinda havia um problema a resolver, arranjar forma de penetrar no posto de transforma\u00e7\u00e3o. Disso se encarregou o Garcia, com a colabora\u00e7\u00e3o de outro jovem entusiasta e habilidoso, o Fl\u00e1vio. Corri sab\u00e3o, conseguiu previamente um molde, a partir do qual modelou a chave para abrir a porta de chapa.<\/p>\n<p>Vezes sem conta, os Joaquim discutiram os pormenores da ac\u00e7\u00e3o, para tudo bater certo de forma sincronizada. Dez minutos antes da hora aprazada, Garcia foi-se postar na esquina mais pr\u00f3xima, vigilante.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia movimento na avenida, nos \u00faltimos minutos n\u00e3o passara vivalma, quando o Rodrigues apareceu pelo caminho das vinhas, \u00e0 hora certa, acendeu por tr\u00eas vezes o isqueiro. Era o sinal combinado, o caminho estava livre.<\/p>\n<p>As onze horas do dia 27 de Fevereiro de 1935, a maior parte do Barreiro ficou completamente \u00e0s escuras!<\/p>\n<p>Antes que a guarda e as autoridades recuperassem da surpresa, j\u00e1 dezenas de bandeirolas vermelhas estavam suspensas dos fios de electricidade e de telecomunica\u00e7\u00f5es, em v\u00e1rios pontos da vila: esta\u00e7\u00e3o dos barcos, Rua Miguel Pais, Rua Miguel Bombarda, Recosta, Verderena, Bairro das Palmeiras, esta\u00e7\u00e3o do Lavradio, etc.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, um minucioso programa tinha sido discutido e tra\u00e7ado em dezenas de reuni\u00f5es das v\u00e1rias c\u00e9lulas dos organismos locais e da organiza\u00e7\u00e3o da juventude.<\/p>\n<p>As brigadas tinham sido estruturadas e distribu\u00eddas no terreno, cada qual com a sua miss\u00e3o bem definida.<\/p>\n<p>A coloca\u00e7\u00e3o de bandeirolas era a tarefa mais entusiasticamente disputada, por vezes com calor excessivo, que levava a quebrar algumas regras de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O elevado n\u00famero de contactos intergrupos, contrariando a regra da compartimenta\u00e7\u00e3o, viria a custar muito caro quando sobreveio a repress\u00e3o feroz.<\/p>\n<p>Era enternecedor o entusiasmo e a destreza com que aquela malta nova atirava o fio com uma pedra atada, a bandeirola enrolada, que volteava uma, duas, tr\u00eas vezes.., e quedava-se suspensa dos fios, desfraldando o pano vermelho.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias, v\u00e1rias ac\u00e7\u00f5es de agita\u00e7\u00e3o, com pichagens, colagens e divulga\u00e7\u00e3o de documentos, tinham mantido animado o burgo. Tratava-se do cumprimento da \u00absemana de agita\u00e7\u00e3o e propaganda\u00bb, na qual participaram dezenas de militantes comunistas e outros democratas, unidos por fortes sentimentos antifascistas.<\/p>\n<p>As bandeirolas drapeando ao vento, perante a alegria mal disfar\u00e7ada de milhares de peitos barreirenses, como que diziam:<\/p>\n<p>\u2014 Estamos aqui, estamos fortes, o fascismo n\u00e3o passar\u00e1!<\/p>\n<p>Havia mais de 10 minutos que o Barreiro estava mergulhado na mais profunda escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ajudem, ajudem&#8230; n\u00e3o consigo, n\u00e3o&#8230;!<\/p>\n<p>C\u00e1 em baixo o pedido de ajuda paralisou momentaneamente o grupo, a ningu\u00e9m tinha passado pela cabe\u00e7a duvidar da possibilidade de \u00eaxito do Costa, sempre t\u00e3o seguro e determinado.<\/p>\n<p>Mas a consist\u00eancia das equipas v\u00ea-se pela sua capacidade de reac\u00e7\u00e3o aos imprevistos. Joaquim da Aldeia foi o primeiro a reagir, avan\u00e7ou resoluto para os degraus e come\u00e7ou a subi-los com energia, em breve estava junto do Costa, hirto e rigidamente agarrado aos ferros:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-14539 size-medium alignleft\" src=\"https:\/\/barreiroweb.eu\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Copia-de-PC190025-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Copia-de-PC190025-300x225.jpg 300w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Copia-de-PC190025-800x600.jpg 800w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Copia-de-PC190025-768x576.jpg 768w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Copia-de-PC190025-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/arquivo.barreiroweb.net\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/Copia-de-PC190025.jpg 1344w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>D\u00e1-me a bandeira, n\u00e3o h\u00e1 problema camarada.<\/p>\n<p>\u2014 Tira-a de dentro da minha blusa, n\u00e3o me consigo mexer.<\/p>\n<p>Uns momentos de atrapalha\u00e7\u00e3o, passar pelo amigo aterrado, tirar-lhe o pano de dentro da camisola e continuar a subida n\u00e3o foi tarefa f\u00e1cil.<\/p>\n<p>O Rodrigues tamb\u00e9m subira e ajudava a descer o Costa. Toda a equipa estava ansiosa, o Joaquim, da Aldeia Galega por nascimento, descia finalmente, arfando de cansa\u00e7o e de contentamento, embargada a voz pela emo\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 em cima! J\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 em cima!<\/p>\n<p>No dia seguinte, 28 de Fevereiro de 1935, a bandeira volteava ao vento, no cimo da chamin\u00e9 das oficinas dos Caminhos de Ferro, ali para os lados do Pal\u00e1cio do Coimbra.<\/p>\n<p>S\u00edmbolo do orgulho revolucion\u00e1rio, da esperan\u00e7a num mundo melhor, da liberdade e da dignidade que o salazarismo roubava, a bandeira vermelha ficar\u00e1 para sempre na hist\u00f3ria do Barreiro oper\u00e1rio, resistente e antifascista,<\/p>\n<p>BARREIRO, UMA HIST\u00d3RIA DE TRABALHO, RESIST\u00c9NCIA E LUTA<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">ARMANDO SOUSA TEIXEIRA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As pernas come\u00e7aram a tremer-lhe, nas m\u00e3os j\u00e1 lhe faltavam as for\u00e7as, o ferro frio dos degraus parecia distanciar-se, o ch\u00e3o firme dez metros abaixo desaparecia na n\u00e1usea e na escurid\u00e3o. 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